quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Mais uma crônica de Fernando Veríssimo - Muito boa!!!


EXIGÊNCIAS DA VIDA MODERNA 

Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
 Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
 Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão). Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
         Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.
 Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia...
 E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax. Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
         Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.
 Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
 E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
 Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
 Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo - e nem estou falando de sexo tântrico.
         Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia.
         A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo! Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos junto com os seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher... na sua cama.
         Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
         Agora tenho que ir. É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.
         E já que vou, levo um jornal... Tchau!
 Viva a vida com bom humor!!!

Gênero Textual - Crônica

A crônica é um gênero textual muito veiculado em jornais e revistas  que trata de temas cotidianos , muitas vezes ,de forma descontraída e bem -humorada. 

Leia a crônica abaixo , de Luís Fernando Veríssimo:

RUÍDOS
Luís Fernando Veríssimo

Você pode controlar a maioria dos ruídos do seu corpo (o espirro, o  arroto, você sabe do que estou falando) mesmo que isto lhe custe algum  suplício. Mas existe um ruído absolutamente incontrolável, que nada reprime ou disfarça. É aquele barulho que faz a barriga quando menos os   que estão à sua volta ou você esperam. Geralmente - é fatal - no momento de maior silêncio no recinto.
Isto já aconteceu, claro. Você está, digamos, numa sala de espera, naquele convívio forçado e constrangedor de uma sala de espera lotada, e de  repente sua barriga faz "grwol". Depois "grl, grl" e logo em seguida "brliadbm". E quando tudo parece terminado, vem um Post Scriptum: "Piauiiim..."
Você olha em volta sem mexer a cabeça. Será que alguém ouviu? Claro que ouviram. Na rua devem ter ouvido. O que fazer?
Você pode ficar impassível, olhando para um ponto qualquer no infinito.
Não foi a sua. E mesmo que tenha sido, o que tem? Pode acontecer com qualquer um. Você não tem que dar satisfações a ninguém. Só espera que o  fato se perca no esquecimento. Mas sua barriga repete a sequência. "Grwol". Depois "grl, grl". Depois "brliadbm".Silencio. Suspense.Finalmente: "Piauiiim...
"Você pode sorrir para todos e sacudir a cabeça, resignado, como que desistiu de disciplinar uma criança rebelde. "Essas barrigas...". Os outros aceitarão seu convite para uma confraternização bem humorada em torno do que é, afinal, um incidente gástrico, e portanto comum, banal e  profundamente humano. A desvantagem deste procedimento é que ele só dará certo uma vez. Se sua barriga voltar a manifestar, você não contará  mais com a boa vontade unânime dos circundantes. Alguns farão cara de "Foi divertido, mas agora chega".E não há nada que você possa fazer.
Um terceiro caminho é, no momento do barulho, olhar para a pessoa do lado  com um misto de surpresa e indignação. É uma tática calhorda, mas você transferirá as suspeitas.
Ou então você só tem uma saída: assumir a barriga e seu repertório. Foi a minha, sim, e tenho orgulho dela!
http://pensador.uol.com.br/cronicas_de_luis_fernando_verissimo/

Características da crônica:
      O autor   Ricardo Sérgio analisa a proximidade entre a crônica e o conto .  

Segundo ele :podemos enumerar algumas características da crônica que podem ser confrontadas com as do conto. São elas:
Está ligada à vida cotidiana. Contém um depoimento pessoal, com estilo e pontos de vista individuais. Narrativa informal, familiar, com sentimentos íntimos mais profundos.
Procura reproduzir na escrita a linguagem do cotidiano, ou seja, coloquial, às vezes, carregada de sentimentos, ou de emoção, ou ainda, de ironia, de crítica.
Tem sensibilidade em relação a realidade. Procura a síntese, a brevidade, a leveza de sentido e uma dose de lirismo.
Faz uso do fato como meio ou pretexto para o artista exercer seu estilo e criatividade.
Diz coisas sérias por meio de uma aparente conversa fiada.
Ele acrescenta que a crônica teve um desenvolvimento específico no Brasil, não faltando historiadores literários que lhe atribuem um caráter exclusivamente nacional. Realmente, a crônica, como a entendemos, não é comum na imprensa de outros países. Por isso, entre nós, o prestígio da crônica não tem deixado de crescer. Machado de Assis, Olavo Bilac, Humberto Campos, Raquel de Queirós ou Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Rubens Braga, Paulo Mendes, Paulo Francis, Arnaldo Jabor, Érico Veríssimo e tantos outros, cultivaram-na ou cultivam-na com peculiar engenhosidade, criatividade e assiduidade. ®Sérgio. 


Fonte:http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/794029















domingo, 16 de outubro de 2011

Gênero textual - Artigo de opinião

    O artigo de opinião é um gênero textual em que o autor defende um ponto de vista  em relação ao assunto tratado   .Geralmente é um tema relevante para a sociedade e, muitas vezes, polêmico.É portanto, um texto argumentativo, uma vez que o autor utiliza argumentos para defender  sua tese, sua ideia.
    É empregada a variedade-padrão da língua . Tal gênero é veiculado em  suportes textuais  como  jornais , revistas e sites.
 
    Leia, abaixo ,um exemplo de artigo de opinião:

O Poder da Validação
Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os super-confiantes simplesmente disfarçam melhor. Não escapam pais, professores, chefes nem colegas de trabalho.
Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran treme nas bases nos primeiros minutos de cada apresentação, mesmo que a peça que já tenha sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da primeira reação do público, é que o ator se relaxa e parte tranquilo para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico inseguro a cada novo artigo que escrevo, e corro desesperado para ver os primeiros e-mails que chegam.
Insegurança é o problema humano número 1. O mundo seria muito menos neurótico, louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros. Trabalharíamos menos, curtiríamos mais a vida, levaríamos  mais na esportiva. Mas como reduzir esta insegurança?
Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende dos outros. Está totalmente fora do nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera.
Segurança depende de um processo que chamo de "validação", embora para os estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria confirmar que essa pessoa existe, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor.
Todos nós precisamos ser validados pelos outros, constantemente. Alguém tem de dizer que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja. O autoconhecimento, tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode autovalidar-se, por definição.
Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém. Validar o outro significa confirmá-lo, como dizer: "Você tem significado para mim". Validar é o que um namorado ou namorada faz quando lhe diz: "Gosto de você pelo que você é". Quem cunhou a frase "Por trás de um grande homem existe uma grande mulher" (e vice-versa) provavelmente estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no dia-a-dia poderá dar.
Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo mundo. Estamos tão preocupados com a nossa própria insegurança, que não temos tempo para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o "máximo", que esquecemos de dizer aos nossos amigos, filhos e cônjuges que o "máximo" são eles. Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos.
Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se, ou dominar os outros em busca de poder.
Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos.
Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia. Um elogio certo, um sorriso, os parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um "valeu, cara, valeu".
Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja.
Stephen Kanitz
Artigo publicado na Revista Veja, edição 1705, ano 34, nº 24, 20 de junho de 2001, pág.22
fonte www.kanitz.com.br